pura física

ótima companhia para esta tarde chuvosa: o universo numa casca de noz do gênio stephen hawking.

sempre acessível e bem-humorado hawking esclarece os conceitos e as variantes abordadas pelo universo da física e da matemática. o paradoxo dos gêmeos, a constante cosmológica, buracos negros, teoria quântica, singularidades, princípio da incerteza, o conceito de tempo, teoria de yang-mills, álgebra de grassmann, teoria das cordas, as “p-branas”, supergravidade com 11 dimensões, teoria do tempo imaginário, holografia, entropia. o livro nos mostra que a realidade não é exatamente aquilo que vemos. se eu tivesse uma religião ela seria a física e este livro, a minha bíblia ou alcorão.

quando fiquei na merda, há uns dez anos,  era agnóstico. mas todo mundo que fica na merda, a primeira coisa que faz é pedir arrego a deus. na minha condição de agnóstico isto era impossível. cheguei a frequentar centro kardecista e ir à igreja na hora do almoço mas graças as deus não dei continuidade a estas práticas.

quando criança por uma infelicidade minha mãe entrou numa de ser evangélica e me arrastava para os cultos. o dia do culto era um transtorno. já de tarde me dava um mal estar que se arrastava até a noite quando eu tinha que acompanha-la, descrente, em sua crença. o culto, na minha cabeça de criança era uma episódio surreal. eu escutava o pastor contar aquelas histórias bíblicas fantásticas e ficava pensando: não é possível que isto seja verdade, tudo tão fantasioso e implausível (eu nem sabia o significado desta palavra) e as pessoas ali concordando com tudo sem questionar.

não acreditava em papai noel desde os 4 ou 5 anos e para mim era muito difícil acreditar naquilo que ouvia. acabava dormindo. não entendia exatamente quando diziam que só jesus salva. salva de que? da  morte? de ser assaltado? de ficar doente? de ser sequestrado? nunca entendi o que significa ser abençoado. ser abençoado nos livraria de morrer, ficar doente, pobre etc?

com uns 15 anos aconteceu uma coisa que mudou minha vida. tinha um cara da igreja, rogério o seu nome, que havia nascido com uma cardiopatia. ele era um menino exemplar: não bebia, não fumava, não cheirava, não trepava, dava até discurso na igreja. a família gastou rios de dinheiro para comprar uma válvula que seria colocada no seu coração para resolver seu problema. lembro que quando ele foi fazer a cirurgia fizeram uma corrente de oração para dar tudo  certo. ele morreu dias depois, ainda no cti. nesse dia tive a certeza: deus não existe. e me tornei ateu.

larguei a igreja, deixei o cabelo crescer  e nunca mais quis saber de religião embora continuasse lendo a bíblia não sei se por curiosidade, mas quanto mais lia mais se tornava firme a minha convicção. minha mãe chorou mas acho que com o tempo se conformou acreditando que um dia iria ter de volta a ovelha desgarrada.

o tempo foi passando ( e não há outro jeito) até que um dia conversando com alguém  me disseram que se se ninguém podia provar que deus existia eu também não podia provar que deus não existia. e se deus tivesse morrido como disse  Nietzsche?  se todo munco morre, porque ele também não poderia ter morrido? nesse dia me tornei agnóstico. o agnóstico é aquele que sabe que não sabe.

mas como ia dizendo um dia fiquei na merda por ser um idiota e como todo idiota precisava de um deus pra me socorrer. como disse fui a centro, igreja católica mas me recusava a crer que encontraria resposta em alguma religião. existem milhares de religiões ativas e outras milhares que desapareceram. todas elas com suas (meias-)verdades e tão contraditórias entre elas. como alguma religião poderia ser porta voz de deus ou ter sido por ele inventada? a religião dos antigos gregos, a religião dos maias e dos neandertais, cujos deuses já estão todos mortos. a religião dos orientais, dos islâmicos e tantas outras. a não ser que existissem vários deuses que ao longo do tempo também nasciam e morriam.

foi nesse momento que tive contato com a física. li  stephen hawking, marcelo gleiser,  albert einstein, fritjof capra, murray gell-mann e tantos outros até que me convenci da existência de deus. foi uma época de descobrimento e também de ilusão. rezava pelo menos 3 vezes por dia. horas e horas numa perda de tempo incrível.

quando a poeira começou a baixar e comecei a voltar para o mundo real e à roda viva  e pude compreender que atirava palavras ao vento. nessa época alguém me deu a luz e disse: deus está cagando e andando para o ser humano. embora não tenha aceitado aquilo como verdade, o tempo me mostrou que  era a mais dura realidade  que eu me recusava a acreditar. de que serviria deus quando o sol queimasse todo o seu combustível e a galáxia se transformasse em um cemitério escuro?

o episódio da tsunami me abriu os olhos: 300 mil seres humanos foram tragados pela acomodação das placas tectônicas. católicos, judeus, islâmicos, ateus e outros tantos. deus colocou pessoas no planeta sem que este tivesse a condição de abriga-los. é como se alguém construísse um prédio e vendesse os apartamentos sem que a construção tivesse habite-se.

eu tinha chegado ao fim da minha jornada. foi como se eu tivesse dado a volta ao mundo e tivesse retornado ao ponto de partida. fazer o quê? agora só me restava viver, o tempo que me restasse, fosse ele o quanto fosse.

a física me deu a minha maior alegria: saber que deus existe e também a minha maior tristeza: saber que deus está cagando e andando para a raça humana.

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